quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Intercâmbio promove movimento reggae no Jari


O Instituto Cultural Morejar de Laranjal do Jari realizou no dia 11 de novembro de 2006 (Sábado) no Clube Acilaja (em Laranjal do Jari) a gravação do 1º dvd de reggae do Vale do Jarí, que será reproduzido e fará parte do primeiro documentário relacionado à massa regueira moradora do município. O evento, idealizado a partir de intercâmbios culturais mantidos com o Estado do Maranhão (cidade brasileira do reggae), apresentou como novidade as "pedras" regueiras embaladas pela original radiola da baixada maranhense (Império do Som). Também houve exposição de artes plásticas e apresentações de grupos de dança afros. Todos caracterizando o movimento reggae.
De acordo com o presidente do Instituto Cultural Morejar, Edivaldo Ferreira, mais conhecido como professor "Neguinho do Reggae", o evento foi programado com vistas a integrar a conclusão do documentário "Vale do Jari - Movimento Reggae", que retrata toda a evolução e a união da população regueira, em sua maioria - cerca de 90% - migrante do Maranhão.
O documentário, que já está em fase de estudos, deve ser lançado em três estados: Amapá, Pará e Maranhão.
Neguinho do Reggae diz estar confiante de que o trabalho será uma porta de entrada a turistas vindos de outros estados.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A História do Reggae no Brasil

Há muitas versões para o primeiro encontro dos maranhenses com o ritmo jamaicano. A versão mais aceita é a de que, década de 70, um dono de rediola (Riba Macedo), teria tido acesso a alguns discos de reggae vindos de Belém (estes, por sua vez, contrabandeados da Guiana Francesa) e teria começado a levá-los a festas “regadas” aos sons do Caribe.

Cabe, neste momento, lembrar que o reggae não foi o primeiro ritmo das radiolas do Maranhão, que antes executavam outros ritmos caribenhos, como a salsa, o bolero e o merengue. Estes ritmos embalaram os freqüentadores dos salões de São Luís e do interior (principalmente da baixada maranhense) até meados da década de 70. Assim, o reggae foi, aos poucos, inserindo-se e firmando-se no gosto do público maranhense, até que na década de 80 começo da década de 90, consolidou-se como o principal ritmo da periferia de São Luís, que passou a ser chamada de Jamaica Brasileira ou Capital Brasileira do Reggae. Neste momento de grande aceitação da música de Jah, as radiolas já quase não tocavam outros ritmos; sua preferência passou a ser a execução de reggaes que, a partir de então, transformaram-se em verdadeiras “pedras preciosas”. E quão preciosas eram...

No falar das pessoas que fazem parte deste movimento cultural, quando uma série de reggaes é executada somente por uma determinada radiola, chama-se seqüência exclusiva. Cada radiola em São Luís possui sua seqüência particular, com um qualificador específico para chamar a atenção dos regueiros; a Estrela do Som possui a seqüência demolidora, a Itamaraty, a seqüência estilosa, a Rebel Lion, a seqüência indomável, a FM Natty Nayfson, a seqüência arrasadora.

Assim, atualmente no universo regueiro, radiola, “é o conjunto de equipamentos de som das festas de reggae” (mesa do dj + conjunto das caixas de som), pela relação quase indissociável que há entre os sistemas de som e o ritmo, desde a sua explosão nos anos 80 em São Luís. No tocante à qualidade, uma radiola não é analisada por seu tamanho ou quantidade de caixas de som, mas pela sua qualidade sonora (o que implica, de certa forma, uma boa emissão da marcação do contrabaixo) e pela seqüência de músicas executadas, que precisa agradar aos regueiros.

Os proprietários de radiolas pagavam quantias exorbitantes pela posse exclusiva de um LP. Esta disputa era tão acirrada, que chegavam a financiar viagens de algumas pessoas para a busca de raridades na Jamaica, Londres, Holanda e França. A mola mestra do movimento tornou-se a exclusividade; as radiolas possuidoras de reggaes raros e comoventes (que abalavam, agitavam e emocionavam) eram as eleitas pela massa regueira. O objetivo do regueiro ao ir a uma festa era ouvir os melôs (os reggaes) exclusivos de sua radiola e sentir a motivação, o delírio do discotecário ao executá-las.

Como, geralmente, as letras dos reggaes roots são compostas em inglês, o regueiro, para facilitar a identificação da música, bem como o seu pedido nas rádios, chama-a de melô mais uma locução adjetiva determinada pela comunidade regueira por algum motivo particular ilustrando este processo de denominação com exemplos, a música Sweet P. do grupo Fabulous Five é chamada, pelos regueiros maranhenses, de “melô da chuva”. Esta denominação não tem qualquer tipo de relação com sua letra: na ocasião em que foi lançada em São Luís pelo dj Carlinhos Tijolada no clube Barraca de Pau na Cidade Operária, chovia torrencialmente e, por conta deste fenômeno da natureza, a música foi designada desta forma.

A música White Witch da banda Andrea True Conection é conhecida na cidade por “melô do caranguejo”, contudo, o motivo, neste caso, foi a adaptação fonética (adaptação que, aliás, já inspira um interesse para pesquisas posteriores). Em seu refrão, há trecho em que é perguntado What’s gonna get you? (expressão idiomática inglesa que significa O que te chamará a atenção?, O que irá te prender?), o regueiro maranhense, ao escutar este refrão, acomodou a expressão ao sistema fonológico de sua língua materna, o Português, passando a cantar “olha o caranguejo”. E, assim, nasceu o “melô do caranguejo”.

Pela associação com a solidez e resistência da pedra é que, segundo um dos entrevistados, José Eleonildo Soares, o “Pinto da Itamaraty”, uma música muito bonita na Jamaica é denominada stone, por ser uma música “de peso”, de força, de resistência; o Maranhão teria herdado espontaneamente esta lexia, traduzindo-a, assim, para o português (pedra).

Vale aqui ressaltar rapidamente que pedra já se tornou também um adjetivo, sinalizando algo superior, magnífico ou maravilhoso. Como exemplos, têm-se: aquela garota é pedra, esta música é muito pedra

Augustus Pablo

Coloquei um CD especial no aparelho e deixei que o som, tão singular, mas não estranho aos ouvidos como na primeira vez, vibrasse pelo quarto. Quando dei por mim estava dançando com meu filho e embalando-o ao som da melodica de Horace Swaby, mais conhecido pelo apelido de Augustus Pablo

O Cd em questão era o primeiro volume do CLASSIC ROCKERS, coletânea da Island Jamaica lançada há alguns anos, uma boa introducão ao universo sonoro deste jamaicano de saúde frágil e mente ágil, responsável por alguns dos momentos mais criativos da história do ritmo de Jah. Como produtor Pablo apresentou um conjunto de obras marcantes com uma grande variedade de intrumentistas e cantores, trazendo um novo subgênero de reggae, chamado de 'rockers'. O estilo tinha esse nome por causa da gravadora/loja-de-discos de mesmo nome dirigida por ele (a coletânea citada acima mostra alguns destes trabalhos com artistas como Jacob Miller, Hugh Mendell, Delroy Williams, Junior Delgado e Leroy Sibbles). Como músico levou adiante a tradição instrumental jamaicana, que vinha desde a época do ska e do rocksteady mas andava meio relegada ao segundo plano no reggae, fazendo da sua melódica (um instrumento de sopro que se toca através de um teclado, como pode ser visto no desenho acima) o instrumento solista.

Horace Swaby nasceu em 21 de junho de 1953 em St. Andrew, Jamaica, mas logo se mudou para Kingston. Desde o início o seu instrumento foi a melódica (O jornal New York Times o apontou como o maior tocador de melodica do mundo), comum nas escolas jamaicanas mas nunca usada pelos músicos profissionais, em que era auto-didata. Quando Horace tinha apenas 14 anos foi até a loja de discos de Herman Chin-Loy, primo de outro produtor mais famoso, Leslie Kong. As primeiras notas da melodica de Swaby foram suficientes para que o esperto produtor agendasse a gravação de algumas faixas com o menino tímido. O que veio à luz dessa primeira seção foi "Iggy Iggy", lançada em 1969 (o que faz constatar que ele estava completando 30 anos de carreira quando foi chamado por Jah). Foi Chin-Loy quem deu a Pablo o seu nome artístico. Ele achava que denominações exóticas davam um ar de mistério aos seus instrumentistas e isto ajudava a vender mais discos. Estas primeiras gravações foram compiladas recentemente pela gravadora de Chin-Loy , a Aquarius, no Cd AUGUSTUS PABLO & FRIENDS : THE RED SEA. Nesta época Pablo chegou a tocar teclado com os Wailers mas preferiu investir em sua própria produção.

Logo Augustus Pablo estaria alçando vôos mais altos, criando o seu próprio selo de gravação, o já citado "Rockers International" (que faria par com o sound-system do mesmo nome de seu irmão, Garth). Depois de alguns sucessos esporádicos, Pablo gravaria e entregaria para King Tubby mixar o disco que muitos consideram a obra-prima de ambos: KING TUBBY MEETS THE ROCKERS UPTOWN. Os irmão Barrett (dos Wailers) e Robbie Shakespeare dando uma canja na bateria e baixo e os arranjos de metais de Bobby Ellis formaram a base ideal para as melodias de sabor oriental de Pablo e os "efeitos espaciais" da mixagem de Tubby, perfeitamente combinados neste que é o disco de dub com o qual todos os outros são e serão comparados.

Os próximos anos seriam os mais produtivos da sua carreira. Pablo dividiria o seu tempo entre os artistas que produzia e seus discos instrumentais, como PABLO MEETS MR. BASSIE, tanmbém conhecido como ORIGINAL ROCKERS VOL. 2, que traz belíssimos temas, como a comovente "Golden Seal" e uma versão melancólica de "Burial" de Peter Tosh. Muitos outros trabalhos desta fase de ouro do estilo "rockers" podem ser apreciados em coletâneas como a da RAS Records chamada PABLO PRESENTS ROCKERS STORY (com o inacreditável Ras Bull e os Immortals fazendo uma versão de uma canção de Lennon e McCartney jamais gravada pelos Beatles:"World without love";), e álbuns como ROCKERS MEET KING TUBBY IN A FIRE HOUSE, RISING SUN, entre outros.

Um dos últimos exemplares deste período foi o estupendo álbum de Hugh Mundell, AFRICA MUST BE FREE BY 1983 & DUB, também da gravadora RAS. Mundell foi talvez a grande descoberta de Augustus Pablo e este foi certamente o melhor trabalho de sua curta carreira. A morte prematura e estúpida de Mundell (segundo o pesquisador Steve Barrow acontecida durante uma briga por uma geladeira) abalou Pablo e isso marcaria o início de um período mais discreto, o que seria acentuado pelas novas exigências do mercado, com a chegada arrasadora do estilo dancehall.

Pablo passou os seus últimos anos cuidando de sua loja, lançando obras esporádicas, como o aclamado BLOWING WITH THE WIND, e fazendo alguns shows pelo mundo. Vivia tranquilamente com a família em uma casa nas colinas próximas a Kingston até ser acometido por um mal raro e incurável, a miastenia gravis, que afetou o seu sistema nervoso a ponto dele não conseguir mais reconhecer as pessoas, vindo a falecer no dia 18 de maio de 1999, deixando dois filhos, Addis e Isis, e a companheira Karen Scott. A importância de Augustus Pablo para a evolução do reggae talvez nunca venha ser devidamente reconhecida, mas o seu legado felizmente continuará a embalar as nossas noites e nos inspirar com suas melodias inconfundivelmente belas.

Fontes: "Reggae The Rough Guide", de Steve Barrow e Peter Dalton, Reggae Source, New York Times.

Bunny Wailer


Neville O'Riley Livingstone - seu nome de batismo - nasceu no dia 10 de abril de 1947, na Jamaica. Conheceu Bob Marley ainda criança e a amizade entre eles ficou mais forte depois que a mãe de Marley, Cedella Booker, se tornou companheira do pai de Bunny, Toddy Livingstone. Os dois amigos se tornaram irmãos e continuariam se tratando assim até a morte do maior ídolo da música jamaicana, em 1981. A carreira musical dos dois também se cruzou desde o início. Um ano depois de gravar o seu primeiro compacto, "Judge Not", Bob Marley formaria com Bunny, Peter e outros amigos do gueto o grupo The Wailers, que se destacaria nos anos seguintes entre as dezenas de grupos que se formaram naquela época na ilha caribenha.

Depois de ficar quase dez anos nos Wailers (trabalho interrompido por um ano, quando ele foi preso injustamente por porte de maconha em 1967), Bunny Wailer gravaria o primeiro compacto solo,"Search for Love", pelo seu selo independente, Salomonic Records. Ao mesmo tempo os Wailers assinavam o contrato com a gravadora anglo-jamaicana Island Records e começavam a sua carreira internacional. No final deste mesmo ano lançariam o álbum "Catch a Fire", atraindo a atenção da imprensa mundial e levando o grupo a uma estafante turnê pela Europa no início de 1973. Depois de um descanso na Jamaica, deveriam voltar para a estrada, dessa vez indo para os Estados Unidos, mas Bunny se recusou a viajar. Ele já estava comprometido seriamente com a religião rastafari e não desejava ficar tanto tempo afastado de sua fazenda e de seus rituais. Ele acabou se desligando dos Wailers, no que seria seguido por Peter Tosh alguns meses mais tarde, após a participação de ambos no álbum "Burning". Era o começo de uma nova fase para Bunny Wailer, em que ele lançaria seus trabalhos em estúdio com regularidade, mas dificilmente se apresentaria fora da Jamaica.

O seu primeiro LP solo, "Blackheart Man" (Island Records - 1976), é hoje aclamado como uma obra-prima do roots reggae e é por muitos considerado como o seu melhor trabalho, ao lado de "Liberation" (Shanachie Records - 1987). A produção posterior manteria a qualidade, mas os seus trabalhos mais populares foram os álbuns realizados em homenagem aos Wailers. Chamando para si a responsabilidade de manter vivo o legado do grupo, gravou "Sings The Wailers", "Time will Tell" e "Hall of Fame", ganhando o Grammy de melhor disco de reggae pelos dois últimos (o outro Grammy foi pela coletânea de compactos "Crucial! Roots Classics", lançada em 94).

O rastaman Bunny Wailer é hoje um dos maiores nomes do reggae mundial, sempre a lembrar os seus companheiros da importância das raízes na música. Este é um recado que parece estar sendo compreendido pela nova geração do ritmo, atualmente empenhada retomar o sentimento e a arte original do reggae, mantendo o ritmo que tanto amamos como uma força viva e atuante no cenário musical do terceiro milênio.

Lee 'SCRATCH' Perry


Lee 'Scratch' Perry - alcunha de Rainford Hugh Perry, nascido em 1936 no vilarejo de Kendal, no interior da Jamaica - começou sua carreira no meio musical trabalhando como faz-tudo no Studio One, sob as ordens do lendário produtor Coxsone Dodd. Em meados da década de 60, ele era um misto de mensageiro, técnico de som, compositor, deejay, segurança e também vocalista, mostrando todo seu ecletismo (foi lá que gravou as faixas reunidas em CHICKEN SCRATCH). Depois de sete anos de trabalho, brigou com Coxsone por causa dos parcos salários e da falta de reconhecimento e foi trabalhar com Joe Gibbs, que na época ainda não era um produtor, mas tinha muita grana. Perry passou a comandar o selo de Gibbs, conseguindo alguns hits com suas produções, entre elas uma música onde fazia acusações diretas ao seu ex-patrão.
Pouco tempo depois deixou o novo chefe, novamente atirando para todos os lados, dando mostras do seu gênio terrível e da sua forte personalidade. A partir de 1968 passou a trabalhar por conta própria criando seu próprio selo, o Upsetter, e recrutando alguns jovens músicos para formar sua banda de estúdio, os Upsetters. A formação incluia os irmãos Family Man e Carlton Barret no baixo/bateria, o guitarrista Alva Lewis, o tecladista Glen Adams e Max Romeo nos vocais. Na época todos circulavam por Kingston assintindo filmes do estilo 'western-spaguetti' no cinema, à tarde, e passando as noites no estúdio, onde, devidamente inspirados, criavam ritmos demolidores. Em 1969 Perry emplacou um reggae instrumental na Inglaterra justamente inspirado nos faroestes europeus estrelados por Franco Nero e Clint Eastwood: "Return of Django", o que rendeu seis semanas de shows dos Upsetters em solo britânico. Foi justamente nessa época que os caminhos de Lee Perry se cruzaram com os de Bob Marley, em termos profissionais, visto que eles já se conheciam dos tempos do ska, tendo ambos trabalhado com Coxsone no Studio One.


As coisas estavam mudando na emergente cena reggae jamaicana, por causa do aparecimento de novos selos e produtores independentes, como Perry, que punham em xeque o reinado dos dois maiores produtores até então, Coxsone e Duke Reid. Os Wailers (Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer), que estavam sem produtor depois de terem feito sucesso e brigado com Coxsone, acabaram topando com Lee Perry.


Nesse ponto várias versões já foram apresentadas, sem que uma fosse aclamada como a verdadeira. Segundo o "Queimando Tudo", a única biografia de Marley lançada no Brasil (escrita pelo falecido jornalista americano Thimothy White), depois de alguns ensaios e gravações com os Upsetters, Bob Marley intimou o grupo à abandonar Perry e se juntar à eles, com o argumento de que a união da melhor banda de estúdio com o melhor grupo vocal da Jamaica seria devastadora. Ainda segundo o livro de White, quando Lee Perry soube da tentativa de Bob ficou furioso, a ponto mesmo de querer matá-lo. O caso só teria sido resolvido num tête-a-tête entre os dois, quando depois de horas de discussão acalorada eles chegaram a um acordo, deixando a sala onde estavam em meio à risos e tapinhas nas costas. Os Upsetters se juntariam aos Wailers, sim, mas o produtor exclusivo seria, obviamente, o próprio Perry.


De acordo com outra fonte talvez mais autorizada sobre o assunto, a biografia de Perry, "People Funny Boy", escrita pelo jornalista anglo-americano David Katz (que conviveu com Perry ao longo de quinze anos para completar o livro), Marley o teria procurado com idéias para canções (a primeira teria sido "My Cup") e eles teriam começado a trabalhar sem muitos problemas. O fato é que, de qualquer modo, Perry parou por um tempo com a produção dos inspirados reggaes instrumentais que fizeram o seu nome para se dedicar aos novos contratados.


Logo todos estariam no estúdio, criando o que seria o ponto alto não só das carreiras de cada um como também da própria história da música jamaicana. Marley passou a praticamente morar nos fundos da loja/estúdio de Perry, a Upsetter Shop, dedicando todo o seu tempo a aperfeiçoar a sua música e sendo decisivamente influenciado pelo produtor, tanto em sua forma de cantar como de compor.


A química que rolou nas sessões dos Wailers com os Upsetters foi insuperável, tal a quantidade de clássicos que foram produzidos. São canções que mudaram os rumos do reggae, serviram de base ao enorme sucesso alcançado por Bob na seqüência e estabeleceram Lee Perry como um dos grandes produtores da Jamaica. Muitas das músicas que saíram dessas sessões (Small Axe, Duppy Conqueror, Kaya, Put it on, entre outras) foram regravadas depois por Bob, mas a magia das gravações originais nunca seria ultrapassada.


Infelizmente Perry fez um contrato espúrio com uma distribuidora americana picareta nos anos 1980, que inundou o mercado com Cds feitos a partir de uma fita cassete que ele tinha à mão com estas preciosidades. Por isso o impacto destas canções foi reduzido para as novas gerações, que se cansaram de ver as mesmas faixas de baixa qualidade de reprodução sob vários nomes diferentes. São álbuns que creditam todas as faixas a Marley ou a Marley/Perry, mesmo aquelas reconhecidamente de autoria de Peter Tosh ou Bunny Wailer e por isso não geram direitos autorais para ninguém. Essa é uma das razões pelas quais Bunny e Scratch não se bicam até hoje.


Entre 1969 e 1970 as coisas funcionaram bem, mas em 1971 a ligação entre Lee Perry e os Wailers originais desandou. Tratando-se de personalidades fortes, foi até natural o rompimento da relação de amor e ódio que se estabeleceu entre eles, em meio à acusações mútuas. Apesar disso Perry trabalharia com Marley esporadicamente ao longo dos anos subseqüentes, como na gravação do importante compacto "Jah Live" e na concepção do álbum "Rastaman Vibration", além de outras produções que só agora vieram à tona, como a bela "I know a Place". Como todos sabiam da forma um tanto ilógica com que Perry tratava os seus colaboradores e amigos, Marley nunca deixou de procurá-lo e de freqüentar a casa de seu terceiro mentor (já que o primeiro foi Joe Higgs e o segundo, Coxsone Dodd). Os Wailers ficaram com os irmãos Barret, reformulando o grupo e assinando um contrato com a Island em 1972, onde continuaram a fazer história. Os demais músicos seguiram seu caminho e Lee Perry ficou com o nome Upsetter, convocando novos instrumentistas para seu próximo projeto.


Com o fim da revolucionária parceria com os Wailers, Lee 'Scratch' Perry começou a construir um estúdio nos fundos de sua casa que viria a se chamar Black Ark. Entre 1973 e 1979, o Black Ark foi uma potente usina musical, sob o comando de seu tresloucado construtor/comandante. O som do Scratch e de sua confraria marcou época com produções inovadoras e à frente do seu tempo. Passaram pelas mãos de Scratch nomes como Max Romeo, Junior Murvin, Heptones, Gregory Isaacs, Junior Byles, Congos, além de calouros a quem dava a tão sonhada primeira chance. E ele ainda encontrava tempo para cuidar de sua carreira solo. O documentário "Roots, Rock, Reggae", do inglês Jeremy Marre, registra uma dessas seções, dando uma idéia do clima que gerou uma sonoridade única, que também nunca mais foi repetida, nem por Scratch nem por ninguém.


Com as atenções do mundo voltadas para a Jamaica por conta do sucesso de Bob Marley, era natural que a música de Lee Perry se destacasse, levando-o à vôos internacionais. A Island Records assinou com ele um contrato de distribuição, e seu estilo acabou chamando a atenção de figuras como Paul McCartney e o Clash, que inclusive regravaria no seu primeiro disco a clássica 'Police and thieves'. Pra manter a tradição ele acabou rompendo com Chris Blackwell, chefe da gravadora, à quem também fez acusações através de suas músicas.
Lee Perry viveu esse período trancado no estúdio na maior parte do tempo, às voltas com intermináveis sessões de gravação regadas à álcool e ganja em profusão. As pressões da notoriedade começaram a ficar cada vez mais pesadas, com dezenas de dreads freqüentando a sua casa em busca de uma oportunidade de gravação ou de dinheiro (ele chegou a ser extorquido por traficantes e outros bandidos da ilha). Tudo isso, somado ao fato de suas inovadoras produções não estarem dando o retorno financeiro esperado (além de uma certa hesitação da Island em lançar os trabalhos mais experimentais), levou-o a sofrer uma séria crise nervosa, que o fez expulsar a pauladas todos os estranhos de sua casa. A partir de então ele foi abandonando aos poucos a produção no Black Ark. Após uma frustrada tentativa de retomar o estúdio, um incêndio que muitos dizem ter sido ateado por ele mesmo (embora a famiília negue), em 1983, enterrou para sempre a história da Arca Negra. Desde então muito se falou em reerguê-lo, mas nada de concreto foi realmente realizado para tanto.

Depois do incêndio, Perry acabou sendo abandonado por sua companheira, Pauline Morrison, cansada do seu estilo de vida. O acontecimento significou uma ruptura radical com o passado, onde ele resolveu não gravar mais com seus companheiros jamaicanos (principalmente os que usavam dreadlocks, uma implicância que iria durar por muito tempo), marcando o início de uma fase em que ele passou a ter um comportamento cada vez mais excêntrico. Recebia jornalistas agindo de maneira estranha, em meio às ruínas do estúdio, totalmente cobertas de graffitis e outras pinturas, sempre com um discurso meio fora de órbita, poético, como um orador tresloucado e muito bem informado. Por essas e outras, ficou com fama de louco. Perry passaria os anos seguintes errando entre a Europa e a Jamaica, chegando a morar em Londres por alguns anos. Nessa época participou de muitas produções, mas apenas algumas resultaram em álbuns acabados, mesmo assim de qualidade variável. Uma de suas decisões nessa época foi dar prioridade à auto-produção, embora de vez em quando aceitasse trabalhar para outros artistas.
Em 1987 aconteceu finalmente o retorno definitivo do gênio aos seus melhores dias.


Trabalhando em conjunto com o produtor inglês Adrian Sherwood e a banda Dub Syndicate (cujo núcleo era formado pelos integrantes da banda Roots Radics), Perry lançaria o clássico 'Time Boom X De Devil Dead', muito mais do que uma obra-prima. Foi a sua volta à cena em grande estilo, embora ele pouco tenha contribuído para dar forma à base instrumental deste disco (mas suas letras geniais e performance inspirada no vocal já bastaram). Na seqüência se seguiram outros excelentes lançamentos, como "From the Secret Laboratory", bem como várias reedições de suas agora lendárias produções dos anos 70, como a já citada "Open the Gate" .


Depois de todas as atribulações de sua vida pessoal, que também foi bastante intensa (tem pelo menos seis filhos com várias mulheres), encontrou um refúgio seguro na Suíça, junto com sua nova esposa, Mireille Perry. Assim, Lee 'Scratch' Perry se mantém como um dos nomes mais importantes e decisivos na história do Reggae. As produções realizadas nos últimos 15 anos fizeram com sua carreira como showman decolasse. O rei louco do reggae é hoje um artista muito solicitado para shows ao redor do planeta, quase sempre junto com outro produtor de grande talento: Mad Professor (nome que parece ter sido inspirado em Perry), com quem gravou vários álbuns nos últimos tempos.


Lee "Scratch" Perry continua a reinar soberano nos palcos e estúdios, cumprindo uma trajetória atribulada mas vitoriosa. Depois de algum tempo longe da ilha natal, parece estar recebendo o reconhecimento devido de seus conterrâneos, pois recebeu, em agosto de 2002, o Lifetime Achievement Award, prêmio pelo conjunto da obra dado aos artistas jamaicanos de maior destaque. Em 2003 outra láurea importante, o Grammy, o mais importante prêmio da indústria fonográfica mundial, pelo álbum "Jamaican ET".


Em abril de 2007, Lee Perry finalmente se apresentou no Brasil pela primeira vez. Tendo em vista tantos nomes de peso da cena jamaicana que se foram nos últimos anos, pode-se dizer que Perry é um sobrevivente, para a sorte de quem puder encontrá-lo frente a frente em uma de suas loucas apresentações.

Discografia selecionada:


Lee Perry : Chicken Scratch (Heartbeat/USA) - Puro ska. Gravações de 64 e 66, com acompanhamento dos Skatalites, algumas com backing vocals dos Wailers.
The Wailers: Soul Revolution (Trojan/UK) - Dois cd's com catorze registros das memoráveis sessões que reuniram Wailers, Upsetters e Lee Perry e suas respectivas versões dub. Clássico.


Lee Perry : Africa's Blood (Trojan/UK) : Lançado em 71, a maioria das músicas são instrumentais dos Upsetters.
The Upsetters and Friends 1969-1970 (Trojan/UK) : Registros de sessões de gravações comandadas por Perry no período.

Lee "Scratch" Perry: Upsetter Shop Volume 2 - gravações realizadas entre 1969 e 1973, com algumas canções raras de Eric Donaldson e o impagável Pat Satchmo, que cantava exatamente igual a Louis Armstrong.

Lee Perry: Black Board Jungle Dub - Alguns dos primeiros "experrymentos" sonoros com a forma do dub. Várias versões de faixas realizadas para os Wailers, como "Kaya" e "Keep on Moving". Indispensável.

Lee Perry and The Upsetters : Some of the best (Heartbeat/USA) - Coletânea com alguns dos clássicos produzidos com a primeira encarnação dos Upsetters.

Lee Perry and Friends: Upsetter Colection (Trojan) - Reúne desde instrumentais antigos, como "Django shoots first", até canções antológicas da fase imediatamente anterior ao Black Ark, como "Words of my Mouth", passando por faixas hilárias como "Cow Thief Skank" e outras com um balanco funky como "French Connection".

Lee Perry and Friends: Chapter 2 of "Words" - Bom complemento ao disco anterior, com várias versões de "Words of my Mouth" e outras faixas cômicas, como "Burning Wire". Alguns Djs, como Dennis Alcapone ("Rasta Dub") e I Roy ("Dr. Who"), dão as caras.

Lee Perry and Friends: Give me Power (Trojan): Algumas das últimas gravações realizadas antes da construção do Black Ark, com destaque para as faixas de Max Romeo, Junior Byles e a bela "To be a Lover".

Lee Perry & Friends : Scratch and Company Chapter 1 (Ras) : Genial. Material gravado entre 70 e 76, com a presença de vários artistas e muitos dubs. Mais tarde foi lançado pela Ras juntamente com o antológico "Black Board Jungle Dub" no Cd "Scratch Attack".

Lee Perry: Arkology (Island) - Caixa de 3 Cds com algumas das mais sensacionais produções oriundas da Black Ark. Destaque para as versões de "Police and Thieves" e outras faixas clássicas, como "Vibrate On" (esta uma colaboração com Augustus Pablo.

Lee Perry and Friends: Open The Gate (Trojan) - Traz faixas comoventes, como "Rainy nights in Portland" e outras de grande força melódica e inventividade rítmica.

Lee Perry and The Upsetters: Build the Ark (Trojan) - Segundo o "Perriólogo" Mick Sleeper, este e os dois álbuns listados acima formam a "santíssima trindade" das produções da Black Ark. Neste tem várias pérolas, inclusive uma inacreditável versão de "Feelings" (aquela do brasileiro Morris Albert), com direito a dub.

Lee Perry: Soundzs from the Hot Line (Heartbeat) : Gravações feitas no Black Ark, entre 76 e 79, algumas tiradas de fitas master que estavam quase perdidas. Pedradas.

Lee Perry e Dub Syndicate: Time Boom X De Devil Dead (EMI-Odeon, 87) : Já comentado no texto acima. Lançado no Brasil em 88, hoje fora de catálogo.

From the Secret Laboratory (Mango/USA, 90) : Outra excelente produção conjunta de Perry e Adrian Sherwood, como o disco anterior.

Lord God Muzik (Heartbeat, 92 ver capa ao lado) - Não tem a força dos anteriores, mas traz curiosidades, como "Hot Shit" (singelo recado ao desafeto Chris Blackwell).

Mystic Warrior (Ras, 90) : Ótimo disco, uma parceria com Mad Professor.
Junior Murvin : Police and Thieves (Mango, 77) - Clássico eterno, que vale não apenas pela faixa-título, mas por todas as outras, emolduradas pelo falsete de Junior Murvin.

Max Romeo : War inna Babylon (Mango, 77) - A faixa-título marcou a carreira de Romeo, que sempre a canta em seus shows. Outras voltaram à tona recentemente, como "Chase the Devil", sampleada em uma faixa do Prodigy e em outros menos votados.

Heptones: Party Time (Mango,77) - Heptones inna Black Ark stylee, muito swing e classe, sob a liderança do mestre Leroy Sibbles, regravando alguns dos sucessos criados para o Studio One.
The Congos: Heart of The Congos (Blood & Fire, 96) - Originalmente gravado em 1977, é um dos mais festejados álbuns de reggae da história. No entanto foi recusado pela Island, que achou o material fraco, provando que Chris Blackwell também cometeu sua cota de erros crassos.

Lee Perry também colaborou para tal erro de avaliação, mandando para a gravadora uma cópia mal-gravada em cassete, pois talvez ele não quisesse mesmo que o "vampiro branco" o lançasse. Teve uma edição decente somente na década passada, sob a tutela do expert Steve Barrow, mentor da gravadora Blood & Fire. Graças a ele foi possível apreciar em toda a plenitude o falsete de Cedric Myton e o poderoso barítono de Congo Ashanti Roy e Watty Burnet. Infelizmente a fogueira das vaidades foi atiçada pelo interesse internacional pelo grupo e eles romperam com Scratch em seguida (e depois entre eles) e nunca voltariam a fazer nada parecido com esta obra-prima.

Fonte: biografia de Lee 'Scratch' Perry escrita por Mick Sleeper, biografia de David Katz, "People Funny Boy".

P.S.- nota sobre o Grammy de Lee Perry, em 2003:
Lee "Scratch" Perry ganhou o seu primeiro Grammy de melhor álbum de reggae por "Jamaican ET" . O disco foi lançado pela Trojan Records (foi a primeira vitória de um lançamento desta veterana gravadora inglesa) e era um dos últimos trabalhos originais de Perry. Ele concorreu com: Alpha Blondy, pelo álbum "Merci" (Shanachie Records); Bounty Killer, pelo álbum "Ghetto Dictionary: The Mystery" ; Capleton, pelo disco "Still Blazin" e Freddie McGregor, pelo álbum "Anything For You", todos os três últimos pela gravadora 'jamaicana' V.P. Records. Segundo o jornal Jamaica Gleaner, a comunidade musical jamaicana reagiu com um pouco de frustração, pois se esperava uma vitória de algum artista radicado na ilha (Perry mora há mais de dez anos com sua esposa e filhos na Suíça), mas também houve o reconhecimento de que ele merecia o prêmio por sua sensacional contribuição para o reggae, embora não particularmente pelo álbum em questão. Outro jornal, Jamaica Star, foi o único a conseguir uma entrevista do veterano produtor, compositor, cantor e shaman do reggae. No entanto, fiel às suas características, concentrou-se em "desesclarecer" a razão de não ter ido a Nova York receber o Grammy, dizendo que havia jurado nunca mais por os pés no que ele chama de "city of doom" (algo como "cidade da fatalidade"). Acrescentou ainda a enigmática afirmação: "Eu sou o inimigo número um de George Bush. O que quer que ele faça, sentirá na pele". Perry ainda acrescentou que não faz mais reggae, mas sim "Eggae", sem esclarecer exatamente o que queria dizer. A sua esposa, Mireille Perry, foi mais clara quando contou ao repórter, com alegria, que todos estavam muito felizes e que o medo da guerra foi a razão que os fez ficar em Zurique. Outra razão pode ser mais uma das muitas superstições jamaicanas: a de que ganhar o Grammy seria uma "maldição", pois alguns artistas, como Black Uhuru e Shabba Ranks, experimentaram um revés em suas carreiras após ganhar o pequeno gramofone. No entanto, como bem observou Roger Steffens, coordenador da comissão que selecionou os indicados, a maioria dos ganhadores ficou na mesma ou mesmo melhorou sua posição, como os recém-laureados Beenie Man, Shaggy e Damian 'Junior Gong' Marley.


A lista completa dos artistas ganhadores do Grammy de melhor álbum de Reggae, desde sua primeira indicação, em 1984, segue abaixo: Black Uhuru (1984), Jimmy Cliff (1985), Steel Pulse (1986), Peter Tosh (1987), Ziggy Marley and the Melody Makers (1988,1989, 1997 e 2006), Bunny Wailer (1990, 1994 e 1996), Shabba Ranks (1991 e 1992), Inner Circle (1993), Shaggy (1995), Sly and Robbie (1998), Burning Spear (1999), Beenie Man (2000), Damian 'Junior Gong' Marley (2001, 2005), Lee "Scratch" Perry (2002), Sean Paul (2003), Toots Hibberts (2004).

Gregory Isaacs


Os amigos o chamam de Jó e de Saddam Hussein, porque muitas vezes ele lutou só contra o mundo. Bob Marley o chamava de Dente (Tooth). Os que admiram o jeito manhoso dele dizer a uma mulher que ela está no seu "Top ten" o chamam de Cool Ruler, o calmo soberano. Mas Gregory lsaacs é muito mais do que tudo isso: ele é A Voz do povo jamaicano.

Gregory Isaacs nasceu em 1950 no bairro de Fletcher's Land, em Kingston. Desde menino trabalhou duro, acumulando uma extensa lista de profissões que incluiu temporadas como marceneiro, tratador de cavalos, eletricista e pintor de painéis e cenários teatrais. Segundo seus velhos amigos, ele foi o primeiro a ter um carro e a montar uma loja de discos entre os jovens da vizinhança. Vizinhança que também abrigava algumas estrelas de primeira grandeza do showbizz jamaicano, como o 'Mr. Rock Steady' Ken Boothe, o trio The Melodians e o melodioso Slim Smith. O jovem Gregory freqüentava os ensaios de todos eles e ainda ouvia atentamente às vozes de Sam Cooke e Brook Benton que chegavam pelo rádio. Foi a partir dessas influências que ele forjou seu estilo único, mixando a malemolência jamaicana com o vocal inspirado da soul music.

No início dos anos 70 ele iniciou sua vitoriosa carreira solo trabalhando com alguns produtores considerados na Jamaica, como Alvin Ranglin e Rupie Edwards. Mas sua busca por independência o levou a fundar um selo próprio de gravação, o African Museum, também o nome da sua loja e quartel-general. Foi o auge da carreira do Cool Ruler, quando apareceu no clássico filme "Rockers", com direito a uma performance inteira filmada, da música "Slavery Days". O selo próprio não o impediu de gravar com outros destaques da cena musical, como Lee Perry e Sly & Robbie. Com eles Gregory lsaacs realizou algumas das obras-primas que consolidaram sua identificação com o público.Sua enorme popularidade na pátria do reggae só se compara à que alcançou em terras brasileiras, mais precisamente no Maranhão, onde se apresentou ao lado da banda Tribo de JAH em 1991. A passagem de Gregory Isaacs por São Luís do Maranhão foi atribulada. Ele veio sem a sua banda e fez uma apresentação na base do playback que não agradou em nada o exigente público da Ilha do Amor. Os organizadores prometeram um segundo show e a Tribo de Jah foi chamada para tocar com ele. Mas Gregory tinha um show marcado em Trinidad Tobago e tentou ir para lá entre as duas apresentações de São Luís, mas foi impedido pela polícia, porque os organizadores não haviam pago o hotel em que ele estava hospedado. O show com a Tribo acabou se realizando e foi um grande sucesso.

O complicado arranjo do jogo amoroso é certamente o tema mais explorado por Gregory, destacando-se a vasta porção dedicada aos dissabores e pequenas alegrias da solidão. Mas a realidade jamaicana e a força da mensagem rasta também têm seu lugar em canções como "The Border", "Mr. Cop" e "Opel Ride". A crueza da vida nas ruas também não é estranha a Gregory lsaacs: "Quando se vive sob certas condições, tudo pode acontecer a você", conforma-se. Assumindo seu lado Bezerra da Silva, ele confirma que já fez meia centena de ‘passeios de Opel', marca dos carros de polícia na ilha: "Quase sempre por dirigir sem licença ou posse de ervas ilegais", esclarece. Nessa hora uma pequena multa resolve o problema, mas nos casos de porte de arma a coisa é mais séria. As rígidas leis jamaicanas sobre armas de fogo já o botaram no xadrez por alguns meses. Mas Gregory se defende: "Quando te acusam uma vez por porte de arma e você é culpado, é fácil para eles acusarem você outra vez e mais outra por isso e mesmo sendo inocente ninguém acredita. Não lido com o crime". Gregory conta ainda que os policiais costumam provocá-lo e às vezes tentam extorquir alguma grana.

Na prisão ele conviveu com todo o tipo de gente, estudou bastante e passou em revista a sua vida. Acabou por transformar essa experiência em novos clássicos do reggae, como "Days of Penitentiary", "Condemned" e muitos outros e celebrou sua saída da penitenciária no disco Out Deh!.

Os problemas com a polícia e o envolvimento com drogas mais pesadas nos anos 80 deram margem a todo tipo de boato. Gregory conheceu então o pior lado da popularidade: "As pessoas em geral adoram falar mal de quem não conhecem e não conseguem entender. Elas sempre acreditam no mal que lhes contam e duvidam do bem. Quanto às drogas, são as armas mais devastadoras. Foram o maior erro que cometi".

Este bem de que alguns duvidam está, por exemplo, na forma como Gregory ajuda sua comunidade. Os moradores do gueto o procuram a toda hora com diversos pedidos: "Grande parte do que ganho com meu trabalho serve para ajudar a todas essas pessoas que precisam de assistência. Por isso a maior alegria para mim é a festa anual que fazemos no Orfanato de Maxfield no dia 7 de janeiro. Meus garotos e outras crianças da comunidade juntam cadernos, pincéis e materiais e doam para eles. Já doei um carro e várias cadeiras de rodas. Se estou vivo até hoje é porque procuro fazer o que é certo". Gregory também cumpre sua obrigação de amparar os filhos que teve com várias mulheres. Sua sintonia com o homem jamaicano é total: "Eu represento o povo. Fazer o povo feliz é me fazer feliz", conclui.

O homem das mil faces que se recusa enquadrado pela sociedade parece ter amadurecido. Continua a trabalhar febrilmente, mas sem cair nas armadilhas que muitas vezes seu estilo de vida lhe pôs pelo caminho. Seja o Gregory sedutor ou o solitário, seja o solidário ou o malandro, seja o formiga ou o cigarra, será sempre lembrado como um dos grandes responsáveis pela excelência da musical arte jamaicana.

O Retorno de Gregory ao Brasil:

Histeria em São Luís!!! Se existe um artista de reggae que seja popular no Brasil, ele é, sem dúvida, GREGORY ISAACS! Fiquei impressionado ao saber da reação das dez mil pessoas que lotaram o Grêmio Recreativo Português Litero, no dia 5 de dezembro de 1998, as quais se acotovelavam desde às 8 da noite para aguardar a estrela da noite, ao embalo das radiolas Itamaraty(Pinto), FM Natty Naifson e Rebel Lion. O delírio começou quando Lloyd Parks e sua lendária We The People Band, por volta das 1 e 45 da manhã, detonaram 45 minutos ininterruptos instrumentais e canções famosas do melhor "roots 'n' culture", Sem dúvida, a banda merece os parabéns!

O veterano GREGORY foi anunciado pelo produtor Pinto, e ovacionado durante uma introdução feita pela banda, um medley com os maiores sucessos do cantor, e imediatamente o público de São Luís entrou em histeria geral, a galera enlouqueceu de felicidade e emoção! Várias pessoas rindo e chorando ao mesmo tempo, ao som de "Love is Overdue", Night Nurse", "Day O", "Sooner or Later", entre outras pérolas. Um show magnífico de 60 minutos, com direito à participação de Gregory Isaacs cover (grupo de São Luís) e seus bailarinos na última música.
Então, o verdadeiro GREGORY deixou o palco, embalado por novo medley de Lloyd Parks & We The People Band, deixando um rastro da verdadeira realeza e seu triunfo.

Bravo, Mr. Cool Ruler!!!!

Nota: Gregory também esteve em Belém e em Salvador, cidade onde reuniu quase 30.000 pessoas, o maior publico desta turnê. O sucesso foi tão grande que podemos esperar mais visitas dele a terras brasileiras.
By: Ronnie Pedra